"Com a bondade amorosa, somos como um peixe em águas claras, nunca submersos pelos fardos do mundo"

Em Nome da Paz

Maha Ghosananda

Nasceu em 1929 na província de Takeo no Camboja. Graduou-se em Phnom Penh, completou o doutorado na Universidade Nalanda, e participou do histórico Sexto Concílio de 1956. Tornou-se discípulo do Ven. Ajahn Dhammadaro na tradição das florestas da Thailândia, e de Nichidatsu Fujii, fundador do Nichiren Nipponzan Myohoji, um movimento japonês dedicado à paz no mundo. Maha Ghosananda tornou-se conhecido internacionalmente por seu trabalho pela paz, sendo chamado de "O Gandhi do Camboja".

Fundou inúmeros templos, no Camboja, EUA, Europa e Austrália; estabeleceu programas culturais e educacionais, patrocinou retiros e conferências pela paz, direitos humanos e desenvolvimento das resoluções não violentas de conflitos. Foi co-fundador na Missão Interreligiosa pela Paz, encontrou-se várias vezes com o Papa, liderou negociações de paz no Camboja. Em 1988 foi eleito Supremo Patriarca do Buddhismo Cambojano. Em 1992 recebeu o Prêmio pelos Direitos Humanos da Rafto Foundation da Noruega e foi nomeado para o Prêmio Nobel da Paz por quatro anos consecutivos: 1994, 1995, 1996 e 1997).

Seu nome e atividades são um dos marcos mais significativos no movimento do Buddhismo Engajado no mundo, sendo patrono de várias entidades, incluindo a primeira entidade internacional congregando os buddhistas engajados em todo o mundo, o INEB, que trata de educação alternativa e treinamento espiritual, igualdade sexual, direitos humanos, ecologia , conceitos alternativos de desenvolvimento e ativismo . Maha Ghosananda, Thich Nhat Hanh e o Dalai Lama são seus três patronos. Fluente em 15 línguas, foi também um ativo sustentador pelos direitos da mulher e dos refugiados de guerra, e do diálogo interreligioso.

Samdech Phra Maha Ghosananda faleceu na segunda-feira, 12 de março de 2007.

Somos Nosso Templo

Maha Ghosanada

Muitos buddhistas estão sofrendo no Tibet, Camboja, Laos, Birmânia, Vietnam e em outros lugares. O mais importante que nós, buddhistas, podemos fazer é incentivar a libertação do espírito humano em cada nação da família humana. Devemos usar nossa herança religiosa como um recurso vivo.

O que pode o Buddhismo fazer para curar as feridas do mundo? O que o Buddha ensinou que podemos utilizar para curar e elevar a condição humana? Um dos atos mais corajosos do Buddha foi andar em meio a um campo de batalha a fim de parar um conflito. Ele não se sentou em seu templo esperando os oponentes se aproximarem dele. Ele andou direto para o campo de batalha a fim de parar o conflito. No ocidente chamamos isto de "resolução do conflito".

Como solucionamos um conflito, uma batalha, uma luta de poder? O que reconciliação significa realmente? Gandhi disse que a essência da ação não-violenta é que ela coloca um fim no antagonismo, e não nos antagonistas. Isto é importante. O oponente tem o nosso respeito. Implicitamente confiamos em sua natureza humana e entendemos que a má vontade é causada pela ignorância. Apelando para o melhor em cada um, conquistamos a satisfação da paz. Ambos nos tornamos fazedores da paz. Gandhi chamou isto de "vitória bilateral".

Nós, buddhistas, devemos encontrar a coragem de sair de nossos templos e entrar nos templos da experiência humana, templos que estão cheios de sofrimento. Se escutarmos o Buddha, Cristo ou Gandhi, não poderemos fazer nada a não ser isso. Os campos de refugiados, as prisões, os guetos e os campos de batalha se tornarão, então, nossos templos. Temos tanto trabalho a fazer.

Será uma transformação vagarosa, pois muitas pessoas na Ásia já estão treinadas em confiar na tradição monástica. Muitos cambojanos me dizem: "Venerável, monges pertencem ao templo!" É difícil para eles se ajustar a este novo papel, mas nós, monges, devemos responder aos crescentes gritos de sofrimento. Precisamos apenas lembrar que nosso templo está sempre conosco. Somos nosso templo.

Samdech Phra Maha Ghosananda, do livro Passo a Passo - Meditações sobre a Sabedoria e a Compaixão